Quando estamos a sós - eu e minha consciência - estabeleço limites, faço competições comigo mesma, revejo aquelas metas que me propus mentalmente a fazer e fiz, ás vezes também me enrolo, invento desculpas e "me puxo a orelha”: que isso não se repita, Bruna. É, acontece até de falar em terceira pessoa, quase um Pelé.
Culpando a conturbação que é viver no século XXI, esses momentos de se escutar são raros, no meu caso só acontecem quando me deito para dormir, surgem espontâneos e conclusivos. Olhar para dentro, quando o filme do dia inteiro passa pela cabeça e é hora de reciclagem, eu aproveito a lucidez do momento como limpeza de gaveta: separar o bom do ruim, jogar fora o que não serve, organizar o que é útil para canalizar na direção certa. Desculpem as metáforas, mas ninguém pode pausar o tempo, rebobinar e corrigir o que já foi feito, o nosso filme não tem edição. Contudo, temos o presente como a oportunidade de reverter erros para que a continuidade seja melhor que o passado.
Um pouco mais de tempo para nós, digo, muito mais. Mais reflexões, retiros. Contemplações que não são feitas. É o que seria necessário para seres mais esclarecidos, menos volúveis a ideologias enlatadas, menos reféns do sistema, aquele auto-conhecimento que a leitura de Clarice Lispector nos propõe. Mas pena que já é hora de dormir.
Bruna Rodrigues