Tudo ficou do jeito que está quando meu pai não voltou mais. Era habitual as temporadas que ele ficava fora, pescador - como o pai de todos os meus amigos - ele partia para uma imensidão generosa e traiçoeira. Encarava os mistérios do mar com seu barco azul e branco, pequeno e adquirido com seu esforço e o do peixe que se perde pela boca. Dessa viagem ele não regressou e nunca ficou clara a razão que o levou a isso. Minha mãe que sempre rezou enquanto o esperava, procurou explicações, perguntou aos compadres, mas as pessoas daqui falam pouco, nada além de conversa de boteco. Ela então acabou por tirar suas conclusões de mulher abandonada.
Poderia ter reagido de muitas formas, se embriagar no boteco do Afonso ou se juntar com outro pescador, mas amava aquele homem mais que a si mesma, um erro grave. Optou pela reclusão, o batom vermelho entrou em desuso como qualquer alegria que um dia residiu em sua vida. Que vida?
A vida de mulher submissa, que fala baixo e é tida como inferior. E era feliz assim. Claro, nunca conheceu outra realidade, ingênua Ana Eliza, ela merece tanto. Nem que ela recusasse, mas deveria ter tido a chance de saber que existem outras formas de vida.
Quanto a mim fui forçado a amadurecer dez anos de uma vez, aguentei firme e procurei estar presente. Não sou seu único filho, aliás sou o mais novo, mais covarde. O mais velho, Leandro, foi embora antes da maioridade, não se dava bem com o nosso pai e também não é de admirar a natureza, não gosta de praia. Eu sempre o tive como herói e aprendi com ele algo valioso: questionar. Pratique o questionamento. Mas naquele momento, ao contrário disso, mamãe precisava de silêncio mesmo que por dentro estivesse em prantos. Ela precisava esperniar e não tinha coragem, minha vontade era dizer que ela podia gritar, eu tinha muito o que chorar também. Achei que ajudaria mais se me calasse, recolhi tudo o que ela tinha quebrado, ela até que achou muita coisa para quebrar, não sabia que tínhamos tanto assim.
Bruna Rodrigues