sexta-feira, 17 de setembro de 2010

A vírgula é a sequência

  Eu não quero a obrigação de apresentar fatos. Eu abro a questionamentos, não tenho habilidade com o exato. O inquestionável dá fim ao assunto e eu não quero decorar ideologias quando o tempo é progressivamente inconstante, a mudança é a regra e o ritmo é ser mutável.
  A única precisão é esse momento, é nele que me toma a inquietação: nesse instante há pessoas com motivos para sorrir, gritar e lastimar. E agora, existem diversas situações divididas por esse território, esse oceano e a parede, que delimita o meu espaço e o do vizinho. Ou não, ás vezes no mesmo corredor, na mesma enfermaria há quem nasça e quem morra, o profissional que salva e o que nada mais lhe cabe fazer. Essa simultaneidade ainda me impressiona.
  Dessa vida mutável e simultânea eu me deparo, como todo ser, com o benéfico e o maléfico, a minha construção e melhora está na minha escolha em absorver do que quer que seja o melhor, aproveitável para minha edificação, me permito perceber mais que o óbvio, porque a negatividade é óbvia, aí aparece o que considero a minha esperança, tomar novamente o fôlego. E não há conclusão, a vírgula é a seqüência, o horizonte é ininterrupto para quem consegue enxergar.

                                                                                Bruna Rodrigues

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Idealização de outras gerações

  A revista Veja disponibiliza um acervo de suas publicações em seu site, um conteúdo vasto para ser explorado. Decorrer pelo tempo e pelo conteúdo da revista.
  É na Edição Especial Jovens do ano de 2004 que enfoco um artigo de Serginho Groisman intitulado "Saudade para quê?" sobre a nostalgia dos jovens que é tão decorrente mas que muitas vezes pode ser apenas uma visão romântica perante as gerações passadas, deixo abaixo o artigo plausível digno de sua leitura.

"Existem jovens que sentem nostalgia por não ter sido jovens em gerações passadas. Saudade do enfrentamento com os militares dos anos 70, da organização estudantil nas ruas, do sonho socialista-comunista-anarquista-marxista-leninista. Ter saudade da ditadura é ter saudade de conhecer a tortura, o medo, a falta de liberdade e a morte. Ser jovem naquela época era coexistir com a morte, ver os amigos ser tirados das salas de aula para o pau-de-arara, para o choque elétrico, para as humilhações. Da mesma forma, quem sente nostalgia dos anos 80 se esquece do dogmatismo limitante das tribos daqueles tempos, fossem punks, góticos ou metaleiros. Hoje, é a vez dos mauricinhos-patricinhas-cybermanos-junkies, das raves, do crack, da segurança dos shoppings e do Beira- Mar. Um cenário que pode parecer aborrecido ou irritante para muita gente que tem uma visão romântica de outras décadas. Mas nada melhor que a liberdade que temos hoje para saber qual é a real de uma juventude e de uma sociedade. Hoje, a juventude é mais tolerante com as diferenças. Hoje, existem ferramentas melhores para a pesquisa e a diversão. Hoje, a participação em ONGs é grande e isso mostra um país que trabalha, apesar do Estado burocrático. O país está melhor. Falta muito, mas o olhar está mais atento, e até o sexo está mais seguro. Não temos hinos mobilizadores, mas nem precisamos deles.
O jovem de hoje não precisa mais lutar pelo fim da tortura ou por eleições diretas, pois outras gerações já fizeram isso. Se o país necessitar, é verdade, lá estarão eles de cara limpa, pintada, o que for. Mas é bobagem achar, como pensam os nostálgicos, que tudo já foi feito. Há muito por realizar pelo país. Seria bom, por exemplo, se a juventude participasse de forma mais efetiva na luta pela educação e pela leitura. Sim, porque lemos pouco, muito pouco. Ler mais vai fazer a diferença. Transformar a chatice da obrigação de ler Machado de Assis no prazer absoluto de ler Machado de Assis. Repensar a escola também é fundamental. Dar ao aluno mais responsabilidade pelo próprio destino e a chance de se auto-avaliar e avaliar seus professores. Reformular o sistema de avaliação e transformar a escola numa atividade de prazer: trazer para dentro dos colégios os temas da atualidade, além de transformar numa atividade doce o trinômio física-química-biologia.
Vivemos num país que mistura desdentados com marombados, famintos com bad boys, motins em prisões com raves na Amazônia, malabares nos cruzamentos com gatinhas tatuadas, crianças com 15 anos na Febem e outras com 15 na Disney. É Macunaíma dando passagem aos tropicalistas, numa maçaroca que é o samba-enredo chamado Brasil. É um país com muitas diferenças – e acabar com elas é papel dos jovens. A juventude deve, acima de tudo, saber desconfiar das verdades absolutas. Desconfiar sempre é ser curioso, pesquisador, renovador, transgressor. Seja intransigente na transgressão. Sempre diga não ao não – e desafine o coro dos contentes."