sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Eu até poderia falar...

Eu poderia falar dos otimistas
Mas os pessimistas me convencem mais
A luz no fim do túnel existe
Mas nada cai do céu
Eu poderia falar da natureza
Mas eu sou urbano
E isso iria contra minha convivência
Eu poderia falar dos objetos que possuo
Mas o que tem etiqueta nunca terá o valor que atribuem
E o que há de mais verdadeiro não é palpável
Eu poderia até falar do tempo
Mas esse me deixou pra trás
E escorre entre dedos

Sendo tudo
Deixa de ser
Pois para ser tudo
Tem que ter você
E disso eu tenho verbos para falar

Eu poderia falar dos que tem fé
Mas essa tem múltiplas interpretações
E eu sou de um Deus só
Eu poderia falar das teorias
Mas eu erro todo dia por subestimar a prática
Eu poderia falar da paisagem
Mas já vi melhores
E pintei com mais cores
Eu poderia até falar das amizades
Mas essa eu reconheci no silêncio
E foram construídas nesse passo
Sem segredos

Sendo tudo
Deixa de ser
Pois para ser tudo
Tem que ter você
E disso eu tenho verbos para falar

Eu poderia falar do noticiário
Que não contempla nada de que eu possa me orgulhar
Mas a sujeira vai muito além das páginas que toquei
Eu poderia falar do crescimento do país
Mas a nação é enganada
E eu não jogo futebol
Eu poderia falar do meu emprego
Mas eu não sei se estou na profissão certa
E nem tenho espírito empreendedor
Eu poderia até falar dos ditados
Do senso comum
Mas o folclore perdeu sua inocência

Sendo tudo
Deixa de ser
Pois para ser tudo
Tem que ter você
E disso eu tenho verbos para falar

                                                                            Bruna Rodrigues

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Série - Cap. 2: Breve Ausência Para Namorico

  Lembro de uma vez em que Leandro arrumou uma namoradinha, ela era tão magra quanto ele, eu sempre contava os ossos da costela dela quando ia entregar os bilhetinhos e presentinhos cortejantes que meu irmão mandava. Eles tinham a mesma idade só no papel, ele já percebia mais o mundo, enxergava mais longe. Ganhava na experiência também, havia beijado todas as vizinhas, porém com essa Mariana era diferente, ele prolongou mais, suspeito eu que o motivo era a curiosidade. Ele era curioso pela pureza dela e ela pela malícia dele.
  Eu sempre quis saber o que ele falava para tirar tantos sorrisos daquela menina, devia existir estratégia naquilo, Leandro sempre traçou planos para tudo. Pensando bem, talvez não fosse o caso, parecia embalado de naturalidade e sem cartas na manga, definitivamente desarmado.
  Os amigos percebiam a diferença, o seu fim de tarde já não era para empinar pipa, não eram mais os seus chinelos remendados que serviam como a trave do gol e nada de comparecer as reuniões do grupinho da rua, a liderança do grupo não interessava e ser capitão agora só do coração da Mariana. Sua ausência para os meninos era sinônimo de presença para a sua menina.
  Os dois apaixonados de pouca idade esqueciam da hora, ela preocupava a mãe e ele se atrasava pro jantar. Caminhavam sem perceber quantos passos na areia deixavam para trás, as canelas só lembravam de doer à noitinha e então lembravam um do outro, das mãos dadas timidamente e das caminhadas sem destino que eram úteis para a coleção de conchas que estavam fazendo juntos, já compartilhavam muita coisa, pretendiam construir castelos de areia impecáveis e pescar peixes coloridos para nomear e exibir aos outros.
  O que sei do término desse amor de infância é que Leandro voltou a liderar o grupo, a ser capitão do time e ter as pipas mais bonitas. As coleções foram pro lixo e Mariana demorou mais que Leandro para se aventurar em outro namoro.

                                                                                   Bruna Rodrigues