quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Série - Cap. 2: Breve Ausência Para Namorico

  Lembro de uma vez em que Leandro arrumou uma namoradinha, ela era tão magra quanto ele, eu sempre contava os ossos da costela dela quando ia entregar os bilhetinhos e presentinhos cortejantes que meu irmão mandava. Eles tinham a mesma idade só no papel, ele já percebia mais o mundo, enxergava mais longe. Ganhava na experiência também, havia beijado todas as vizinhas, porém com essa Mariana era diferente, ele prolongou mais, suspeito eu que o motivo era a curiosidade. Ele era curioso pela pureza dela e ela pela malícia dele.
  Eu sempre quis saber o que ele falava para tirar tantos sorrisos daquela menina, devia existir estratégia naquilo, Leandro sempre traçou planos para tudo. Pensando bem, talvez não fosse o caso, parecia embalado de naturalidade e sem cartas na manga, definitivamente desarmado.
  Os amigos percebiam a diferença, o seu fim de tarde já não era para empinar pipa, não eram mais os seus chinelos remendados que serviam como a trave do gol e nada de comparecer as reuniões do grupinho da rua, a liderança do grupo não interessava e ser capitão agora só do coração da Mariana. Sua ausência para os meninos era sinônimo de presença para a sua menina.
  Os dois apaixonados de pouca idade esqueciam da hora, ela preocupava a mãe e ele se atrasava pro jantar. Caminhavam sem perceber quantos passos na areia deixavam para trás, as canelas só lembravam de doer à noitinha e então lembravam um do outro, das mãos dadas timidamente e das caminhadas sem destino que eram úteis para a coleção de conchas que estavam fazendo juntos, já compartilhavam muita coisa, pretendiam construir castelos de areia impecáveis e pescar peixes coloridos para nomear e exibir aos outros.
  O que sei do término desse amor de infância é que Leandro voltou a liderar o grupo, a ser capitão do time e ter as pipas mais bonitas. As coleções foram pro lixo e Mariana demorou mais que Leandro para se aventurar em outro namoro.

                                                                                   Bruna Rodrigues

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Deixa de ser seu, passa a ser dos que sentem

Quando você faz uma música 
E as pessoas começam a escutar repetidas vezes
Quando você escreve um texto 
E ele passa a ser a filosofia de vida das pessoas
Você tem que saber que trabalha com a identificação
E a obra não é mais sua, passa a ser de quem se entregou a sentí-la

                                                                                   Bruna Rodrigues

Não é mais proibido, topa?

  Quando você tem pouca idade tem que aceitar as proibições dos seus pais, e quando, enfim, chega sua aguardada liberdade tem que saber lidar com ela, ainda não é o paraíso. Se você cresceu o problema agora é maior do que não poder voltar tarde, é hora de aprender sobre responsabilidade e consequências, palavras compridas com significados complexos.
                                                                                                                    
                                                                           Bruna Rodrigues

Alto preço

Você é meu ORGULHO
A pessoa mais forte que eu conheço
É uma pena que pague tão caro por isso.


                                                                         Bruna Rodrigues

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Série - Cap. 1: Até para chorar é preciso de coragem

  Tudo ficou do jeito que está quando meu pai não voltou mais. Era habitual as temporadas que ele ficava fora, pescador - como o pai de todos os meus amigos - ele partia para uma imensidão generosa e traiçoeira.  Encarava os mistérios do mar com seu barco azul e branco, pequeno e adquirido com seu esforço e o do peixe que se perde pela boca. Dessa viagem ele não regressou e nunca ficou clara a razão que o levou a isso. Minha mãe que sempre rezou enquanto o esperava, procurou explicações, perguntou aos compadres, mas as pessoas daqui falam pouco, nada além de conversa de boteco. Ela então acabou por tirar suas conclusões de mulher abandonada.
  Poderia ter reagido de muitas formas, se embriagar no boteco do Afonso ou se juntar com outro pescador, mas amava aquele homem mais que a si mesma, um erro grave. Optou pela reclusão, o batom vermelho entrou em desuso como qualquer alegria que um dia residiu em sua vida. Que vida?
  A vida de mulher submissa, que fala baixo e é tida como inferior. E era feliz assim. Claro, nunca conheceu outra realidade, ingênua Ana Eliza, ela merece tanto. Nem que ela recusasse, mas deveria ter tido a chance de saber que existem outras formas de vida.
  Quanto a mim fui forçado a amadurecer dez anos de uma vez, aguentei firme e procurei estar presente. Não sou seu único filho, aliás sou o mais novo, mais covarde. O mais velho, Leandro, foi embora antes da maioridade, não se dava bem com o nosso pai e também não é de admirar a natureza, não gosta de praia. Eu sempre o tive como herói e aprendi com ele algo valioso: questionar. Pratique o questionamento. Mas naquele momento, ao contrário disso, mamãe precisava de silêncio mesmo que por dentro estivesse em prantos. Ela precisava esperniar e não tinha coragem, minha vontade era dizer que ela podia gritar, eu tinha muito o que chorar também. Achei que ajudaria mais se me calasse, recolhi tudo o que ela tinha quebrado, ela até que achou muita coisa para quebrar, não sabia que tínhamos tanto assim.

                                                                               Bruna Rodrigues

Misturados com o resto do saco ainda existem corações puros

É tão bonito de ver
Tão esperançoso de saber
Que ainda existem corações puros
Pega de susto e sobressalto 
Um ato honesto e gentil
Assim a olho nu
Sem nem vanglórias por isto
Tão simples quanto incomum
Nessa cidade cinza

                                                                           Bruna Rodrigues

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Sub de ninguém

Odeio submissão. Nem abaixo, Nem acima. Olho no olho, por favor.

                                                                             Bruna Rodrigues